 

A Árvore de Natal na Casa de Cristo
Havia num porão uma criança,
um garotinho de seis anos de idade,
ou menos ainda.
Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio.
Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos.
Seu hálito formava, ao se exalar,
uma espécie de vapor branco, e ele,
sentado num canto em cima de um baú, por desfastio,
ocupava-se em soprar esse vapor da boca,
pelo prazer de vê-lo se evolar.
Mas bem que gostaria de comer alguma coisa.
Diversas vezes, durante a manhã,
tinha se aproximado do catre, onde,
num colchão de palha, chato como um pastelão,
com um saco sob a cabeça à guisa de almofada,
jazia a mãe enferma.
Como se encontrava ela nesse lugar?
Provavelmente tinha vindo de outra cidade e caíra doente.
A patroa que alugara o porão tinha sido
presa na véspera pela polícia.
Os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem
também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado
cozinhava a bebedeira há dois dias;
esse nem mesmo tinha esperado pela festa.
No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária,
reumática, que outrora tinha sido babá e que morria
agora sozinha, soltando suspiros, queixas e imprecações
contra o garoto, de maneira que ele tinha medo
de se aproximar da velha.
Mais de dez vezes tinha ido para junto da mãe despertá-la.
Há muito tempo tinha caído a noite
e ninguém acendia o fogo.
Tendo apalpado o rosto da mãe, admirou-se muito:
ela não se mexia mais e estava tão fria como as paredes.
"Faz muito frio aqui", refletia ele,
com a mão pousada inconscientemente no ombro da morta;
depois, ao cabo de um instante, soprou os dedos para
esquentá-los, pegou o seu gorrinho abandonado no leito e,
sem fazer ruído, saiu do cômodo, tateando.
O menino ganhara a rua. Que grande cidade!
Desde o cair da noite, não se encontra mais ninguém
na rua, exceto os cachorros a latir...
Meu Deus! Se ele tivesse o que comer!
O frio, ah! esse frio!
E como seus dedinhos lhe doem!
Que é aquilo ali?
É uma grande vidraça, e atrás dessa vidraça um quarto,
com uma árvore que sobe até o teto;
é um pinheiro, uma árvore de Natal onde há muitas luzes,
muitos objetos pequenos, frutas douradas,
e em torno bonecas e cavalinhos.
No quarto há crianças que correm...
estão bem vestidas e limpinhas.
Riem e brincam, comem e bebem alguma coisa.
Ouve-se música através da vidraça.
A criança olha surpresa; logo sorri,
enquanto os dedos dos seus pobres pezinhos doem
e os das mãos se tornaram tão roxos,
que não podem mais se dobrar nem se mover.
Põe-se a chorar; corre para mais longe, e eis que,
através de uma vidraça ainda avista um quarto,
e neste outra árovre, mas sobre as mesas há bolos
de todas as espécies, e quatro damas sentadas que
distribuem bolo a quem se apresentar.
Na ponta dos pés, o menino se aproximou,
abriu a porta e bruscamente entrou.
Oh! com que gritos e gestos o repeliram!
Uma senhora meteu-lhe uma moeda na mão e
abriu a porta da rua.
Como ele teve medo!
A moeda rolou pelos degraus, pois não tinha
podido fechar os dedinhos para segurá-la.
Corre soprando os dedos.
Sente-se só e abandonado, quando, de repente:
Senhor! Que poderá ser ainda?
Em uma janela há três grandes bonecos vestidos
com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos!
O menino julgou que fossem pessoas vivas e,
quando finalmente percebe que não o são,
começa a rir.
De repente alguém o puxa por trás.
Um moleque grande, malvado,
deu-lhe um tapa na cabeça,
derrubou o seu gorrinho e passou-lhe uma rasteira.
O menino rolou pelo chão;
algumas pessoas puseram-se a gritar:
aterrorizado, fugiu depressa sem saber para onde.
Atravessou o portão de uma cocheira,
penetrou num pátio e sentou-se atrás
de um monte de lenha.
"Aqui, pelo menos", refletiu ele,
"não me acharão. Está muito escuro."
Sentou-se, encolheu-se, de tanto medo,
e bruscamente, sentiu um grande bem-estar,
as mãos e os pés tinham deixado de doer,
e sentia calor, muito calor,
como ao pé de uma estufa.
Subitamente se mexeu:
um pouco mais e ia dormir!
Como seria bom dormir nesse lugar!
"Mais um instante e irei ver outra vez os bonecos",
pensou o menino, que sorriu à sua lembrança:
"Podia jurar que eram vivos!"...
E de repente pareceu-lhe que sua mãe cantava uma canção.
"Mamãe, vou dormir; ah! como é bom dormir aqui!"
- Venha comigo, vamos ver a árvore de Natal,
meu menino - murmurou repentinamente
uma voz cheia de doçura.
Mas não era sua mãe.
Quem seria a chamá-lo?
Não vê quem,
mas alguém está inclinado sobre ele
e o abraça no escuro;
estende-lhe os braços e.....logo....que claridade!
A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro,
nunca tinha visto árvores semelhantes!
Tudo brilha, tudo resplandesce, e em torno,
bonecos - mas não, são meninos e meninas,
só que muitos luminosos!
Todos o cercam, como nas brincadeiras de roda,
abraçam-no em seu vôo, tomam-no, levam-no com eles,
e ele mesmo voa e vê:
distingue sua mãe e lhe sorri com ar feliz:
- Mamãe! Mamãe! Como é bom aqui, mamãe!
- exclama a criança.
Quem são vocês, meninos e meninas?
- pergunta-lhes ele e lhe manda beijos.
- Isto...é a árvore de Natal de Cristo
- Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo,
uma árvore de Natal,
para os meninos que não tiveram sua árvore na terra....
E assim soube que todos aqueles meninos e meninas
tinham sido crianças como ele,
mas alguns tinham morrido,gelados nos cestos,
onde tinham sido abandonados em algum degrau de escada;
outro tinham morrido junto às amas, em algum dispensário;
um sobre o seio exaurido de sua mãe;
outros sufocados pelo ar mefítico
de um vagão de terceira classe...
Mas todos agora são como ANJOS,
todos junto a CRISTO, e Ele,
no meio das crianças,
estende as mãos para abençoá-las e às pobres mães....
E as mães dessas crinaças estão ali, todas,
num lugar separado, e choram;
cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem
voando par elas, abraçam-nas, e com suas mãozinhas
enxugam - lhes as lágrimas, recomendando-lhes que não
chorem mais, que eles estão muito bem ali...
E nesse lugar, pela manhã,
os porteiros descobriram o cadaverzinho de uma criança
gelada junto de um monte de lenha.
Procurou-se a mãe.... Estava morta um pouco adiante;
os dois se encontraram no céu, junto ao bom Deus.
Autor Fiódor Mikhailóvitch Dostoiévski
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