Conselhos da Noite


Era uma vez um jovem pescador que enfrentava
muitos problemas.
O dinheiro estava escasso, a família precisava comer,
ele estava fraco de saúde, a mulher grávida; o pobre
coitado não sabia mais o que fazer.
Certa noite de muito calor, ele simplesmente não
conseguia dormir.
E tanto rolou na cama que achou melhor sair para dar
um passeio na praia.
Era noite de lua cheia.
Ele foi caminhando, a barriga vazia, o corpo fraco.
Mesmo assim a lua era tão linda, as ondas acariciavam
seus pés, o ar estava delicioso.
O jovem sentou-se na areia, depois deitou-se, e ficou
olhando para aquele mar de estrelas e constelações que
era tão lindo quanto as águas à sua frente.
"Ah, se eu pudesse viver assim para sempre:
tranqüilo, alegre, sem tantos problemas para resolver.
Como eu seria feliz!"
De repente, ele adormeceu.
Mal sabia ele que dormira justamente no pino da
meia-noite, a hora aberta quando os mundos se cruzam
e tudo pode acontecer.
Em seu sonho, uma mulher linda desceu direto da lua,
sentou-se ao seu lado e acariciou seus cabelos.
Ele sentou, assustado.
- Quem é a senhora?
- Sou a Noite, a mãe do bom conselho.
- O que a senhora quer de mim?
- Nada, meu filho. Sempre o vejo de longe.
Você tem bom coração. Resolvi ajudar. Só isso.
Faça um pedido, conte-me suas aflições, sempre se
pode encontrar uma solução.
- Mas, dona Noite
- respondeu o rapaz, desanimado,
- eu estou completamente destruído.
Perdi meu barco numa tempestade em alto-mar;
sobrevivi, é verdade, mas agora como é que eu
posso alimentar a minha família?
Meus amigos tentam me ajudar, mas sem
meu próprio barco, é difícil; ganho tão pouco,
estou fraco, quase nem tenho o que comer...
- Então vou lhe fazer uma proposta.
Há uma maneira de conseguir uma embarcação.
Ela é poderosa.
O barco da sorte.
Você sempre terá pesca.
Mas, para conquistá-lo, é preciso CORAGEM.
- Coragem é coisa que não me falta.
- Bem, meu filho, coragem só não basta.
Você precisa de algo mais.
Mas isso eu não posso revelar.
Você terá de descobrir sozinho.
- Mesmo assim, aceito sua proposta,
dona Noite Conselheira.
- Então, venha comigo.
Atravessaremos as profundezas da noite.
Você verá de tudo: seres estranhos,
poderosos, demônios de todas as espécies,
almas do outro mundo, luzes espantosas;
ouvirá gritos, gemidos; verá tesouros
enterrados, animais fabulosos, tudo o que
se esconde na noite mais escura.
- E como encontrarei meu barco?
- O barco será seu, mas para consegui-lo é
preciso resistir a mim, a todos os encantos
do meu mundo.
Você aceita meu desafio?
O pescador aceitou de bom grado.
Seria fácil, pensou.
A Bela Noite o tomou pela mão, e juntos
deslizaram por ondas de estrelas até chegarem
a uma linda praia de areias prateadas e águas
tão escuras quanto o sol cor de chumbo que
as iluminava.
E foram seguindo os fantasmas, criaturas
excepcionalmente belas.
Embora sentisse muita fome, o pescador
recusou-se a comer.
Então surgiram seres de grandes poderes que
lhe ofereceram objetos, espadas cortantes,
bolas de fogo, mas o pescador recusou.
Surgiram em seguida, tesouros enterrados,
ouro, jóias, pratas.
O pescador quis pegá-los, mas lembrou-se dos
filhos, de seu barco... e os recusou.
E finalmente surgiram os animais fabulosos,
feras cavalgadas por lindas demônias dançaram
diante do pescador, oferecendo-lhe
ainda mais jóias, banquetes, música, perfumes,
bebidas, toda espécie de conforto.
O pescador estava fascinado com tudo.
Sua barriga roncava de fome, as pernas estavam
fracas, ele queria tanto alimentar-se!
Mesmo assim, lembrando-se do seu barco,
de seus filhos, e de sua casa, prosseguiu em
sua busca pelo barco da sorte.
Foi entào que despertou.
Amanhecia, o sol brilhava forte em seu rosto.
Ele custou a lembrar-se de onde estava.
Sentia falta de casa, de sua mulher e filhos.
Ele custou a levantar-se.
Sorte que havia um barco ao seu lado onde
podia apoiar-se.
BARCO?
Surpreso, ele lembrou-se de qua a praia estava
vazia quando adormeceu, sem barcos, sem nada.
Mais surpreso ainda ficou ao ler seu nome,
estampado na madeira do barco e debaixo do seu
nome, bem miudinho, com letra caprichada, como
se fosse uma assinatura, a seguinte frase:
"A NOITE É BOA CONSELHEIRA."
Daquela noite em diante, nada mais lhe faltou.

(Heloisa Prieto....Contos do Folclore Brasileiro)


Recomende esta Página!
CLIQUE PARA RECOMENDAR ESTA PÁGINA!