Esfera Sensível

Você: sujeito passivo
em cuja esfera sensível
atitudes são modificadas
em razão da minha conduta:
olhá-lo, embeber-me,
tremer talvez, dizer sem falar.
Nexo causal:
indiscutível conexão
entre meus estímulos e sua reação.
Encabeçando a norma sistemática,
o amor.
Mas você, objeto ilícito
torna nulo o nosso contrato.
E os efeitos?
Poderemos tornar à situação primeira
sem recorrer a perdas e danos?



Voltemos ao dolo:
minha consciência antevê o resultado
( perfeitamente previsível)
e sou movida pela vontade imensa
de consumá-lo.
Ninguém nem nada é impedimento
para que tudo fique na tentativa.
Dolo direto, apenas de perigo.
Meu momento volitivo
supera o intelectual.
Pensando bem,
nem houve erro de tipo.
Meu crime está descrito, objetivamente,
em dois elementos: amar alguém.
Mas amar é tão subjetivo
quanto qualquer pronome indefinido,
o que me leva a pensar
em atipicidade absoluta.
E quando percebo que esse alguém
poderia não ser você
constato a possibilidade
da inexistência de culpabilidade.
Vamos ao juízo:
o fato é criminoso
enquadra-se na tipicidade,
há consciência e vontade de agir
apura-se a existência do resultado
e a relação de causalidade,
donde a sentença:
Olhar-te, tremer, dizer sem falar,
não ter, por tempo indeterminado"...
Autora: Cleide Canton Garcia (1980)